Abusos da PM nas ruas se reproduzem na USP – entrevista com Ricardo Maciel

Posted on 07/11/2011 por

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Fonte:  VI O MUNDO |

por Conceição Lemes

No dia 27 de outubro, quinta-feira, por volta das 18h, a Polícia Militar deteve três alunos que fumavam maconha num gramado junto ao estacionamento que divide os prédios de Geografia e História da USP, na Cidade Universitária.

Um grupo de estudantes começou a protestar, para evitar as prisões. A manifestação foi ganhando adesões – chegou a cerca de 500 — e a tensão aumentando. Os PMS chamaram reforço. Por volta das 21h30 estavam na USP cerca de 15 viaturas, a Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (ROCAM) e aproximadamente 40 policiais militares.

Após quase quatro horas de discussão entre representantes da polícia, estudantes e professores, começou o tumulto. Segundo alguns relatos publicados na mídia, os estudantes gritavam palavras e xingamentos contra a presença da polícia. Irritados, os policiais partiram pra cima do grupo. De acordo com outros relatos, também divulgados na mídia, quando policiais deixavam o local com os três jovens detidos rumo à delegacia, um grupo cercou as viaturas, jogando pedras e outros objetos. A polícia reagiu violentamente, com bombas de gás lacrimogêneo, gás pimenta e cassetete.

“A visão que a grande mídia criou em torno dos acontecimentos do dia 27 é a de que os estudantes da USP invocam a autonomia para poder continuar fazendo uso de seus baseados, recebendo um tratamento distinto do restante da população. Não, não é isso”, adverte Ricardo Maciel. “Na verdade, o aconteceu naquela noite foi o estopim de um rastilho de pólvora que a própria PM armou no campus desde cedo.”

Ricardo Maciel foi aluno de Letras da FFCLH da USP até 2010. No momento, se prepara para fazer mestrado. Como tem muitos amigos lá, foi até a Cidade Universitária apurar o que realmente havia acontecido. O que ele relatou, eu já tinha lido alguma coisa aqui, outra ali. Mas não de forma objetiva. Daí esta entrevista.

Viomundo – Qual a finalidade da PM no campus?

Ricardo Maciel – É dito que a PM está lá para prevenir assaltos, furtos e, principalmente, proteger a vida. Eu acho que o intuito é outro: é apenas repressor.

Viomundo — Por quê?

Ricardo Maciel –Na quinta-feira, logo pela manhã policiais militares estavam revistando estudantes, professores, funcionários, enfim, usuários em geral da Universidade. Muitos foram abordados na porta de suas faculdades e obrigados a apresentar documentos, abrir bolsas e mochilas, etc. Isso gerou descontentamento muito grande, que foi crescendo ao longo dia. De maneira que a própria PM armou o rastilho de pólvora. O episódio da noite só foi o estopim.

Entre estudantes, funcionários e professores há a certeza de que existem policiais do serviço reservado infiltrados na comunidade universitária. Isso me fez relembrar aquele policial à paisana que foi flagrado em frente ao Palácio dos Bandeirantes, quando carregava uma PM, inicialmente tomado como professor, posteriormente teve sua identidade real informada pela própria PM. Ou seja, tratava-se de um policial que estava infiltrado no meio dos professores da rede pública paulista.

Viomundo – Esse tipo de abordagem pela PM já tinha acontecido antes na USP?

Ricardo Maciel – Infelizmente, sim. Os abusos policiais cometidos pela PM nas ruas se reproduzem dentro da USP. Pessoas são revistadas aleatoriamente, e nem estamos num estado de sítio para que isso fosse normal e permitido. Há PMs que escondem a identificação e quando questionados sobre o fato, agridem que os interpela — isso aconteceu na quinta-feira, 27 de outubro! Partem para grosserias e ironias no momento das abordagens.

Em síntese, além de uma PM despreparada para lidar com o público universitário, ela age como se não estivesse lá para proteger a vida, mas para deliberadamente implementar ações contra consumo de drogas, espionagem de atividades políticas e repressão a elas.

Viomundo – O professor Souto Maior já alertou para o fato de que a intransigência da Reitoria da USP em dialogar pode promover um massacre. Você acha isso possível?

Ricardo Maciel – Tem-se na USP, neste momento, o caldo necessário para mais uma crônica de uma morte anunciada. Os mesmos crimes que a PM comete impunemente nas ruas, a rigor não estão isentos de acontecer dentro da USP. Não por acaso constatei que os alunos que escondiam o rosto na ocupação do Prédio da Administração da FFLCH e agora no prédio da Reitoria o fazem menos por medo de punições no âmbito da Universidade e mais pelo receio de retaliações da PM.

Viomundo – Você acha que a sociedade está informada do que realmente está acontecendo na USP?

Ricardo Maciel – Não. A visão que a grande mídia criou em torno dos acontecimentos do dia 27 é a de que os estudantes da USP invocam a autonomia para poder continuar fazendo uso de seus baseados, recebendo um tratamento distinto do restante da população. Não, não é isso.

Para maioria dos estudantes, a questão da autonomia se coloca noutros termos, eu diria que ela vai além deste ponto. No slogan ‘Fora PM’ usado pelos meus colegas está implícita a rejeição contra uma polícia despreparada e com protocolos além daqueles declarados por ela e, principalmente, está implícita a rejeição à existência de uma Polícia Militar, que na sua origem foi criada para reprimir movimentos sociais e políticos, coisa que ela faz até hoje com violência desmedida e de forma impune.

Assim, ela é uma excrescência e precisa ser reformulada.

Viomundo – Quais as bandeiras dos seus colegas?

Ricardo Maciel –  Defesa do espírito crítico da Universidade e da sua autonomia, que são ameaçados por essa polícia despreparada e com intenções não declaradas dentro da USP. Mas fundamentalmente eles levantam a bandeira da luta por uma outra polícia, não militarizada e treinada para defender a vida, respeitar a pessoa independente de sua cor, renda e posição social.

Viomundo – Há outras bandeiras na atual manifestação estudantil?

Ricardo Maciel — Outra demanda é a democratização da USP, que é sabidamente a Universidade pública mais conservadora do país.

Tanto que o desejo de participar e dialogar sobre os caminhos da Universidade sempre bate numa parede. Isso leva os estudantes a colocar suas pautas fora dos espaços institucionais, já que estes só dão voz e poder de participação no processo decisório para uma parcela ínfima da comunidade universitária que, não por acaso, é a mesma há anos.

Nesse diapasão, os conflitos na USP tendem a se repetir. E sinceramente acho bom que eles se instalem ano após ano, pois só assim conseguimos minimamente levantar o debate sobre questões cruciais à Universidade e ao seu caráter público, já que de outro modo não se debate nada.

Se o Brasil renovou sua Constituição em 1988, a USP continua debruçada sobre uma estrutura de poder anacrônica, apoiada num Estatuto cheio de ranços que remontam à ditadura militar. Lamentavelmente, fora dos movimentos estudantil e sindical e de alguns poucos e abnegados professores, o que temos na principal universidade do país é um cemitério quando o assunto é refletir sobre o próprio fazer e a universidade.

A propósito, o governador Geraldo Alckmin, ao comentar o que está se passando na USP, disse que ninguém está acima da lei. Pois eu gostaria de lembrá-lo que a PM também não está acima da lei, mas age como se estivesse ao não usar identificação, ao abordar qualquer um quando bem entende, ao cometer os abusos que vemos todos os dias nos jornais sem que nada lhe aconteça.

Viomundo – Seus colegas estão sofrendo uma condenação moral por parte de alguns segmentos.  O que você acha disso?

Ricardo Maciel — Uma covardia. Podemos até não concordar com os métodos ou com a oportunidade ou não do momento, mas não podemos dizer que não compreendemos suas razões. Afinal de contas,  eles fizeram alguma coisa, não ficaram bovinamente esperando por promessas que nunca irão se cumprir.

Que a sociedade em geral se deixe enganar pela velha mídia que procura falar da maconha para desviar o foco do que realmente está em jogo, tudo bem, já é esperado. O estarrecedor é que existam pessoas na Universidade horrorizadas com uma porta quebrada ou uma bituca de baseado, sem se atentar para o principal. É uma hipocrisia. É como se olhassem apenas pro próprio umbigo, nada mais.

Conceição Lemes é co-editora do VI O MUNDO

Entrevista originalmente publicada no VI O MUNDO, em 7 de novembro de 2011 às 10:00

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