Paulo Arantes: “Nós estamos afundando internamente”

Posted on 10/11/2011 por

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Fonte: Viomundo (Ricardo Maciel, via e-mail) |

Em 30 de novembro 2010,  portanto há um ano, foi realizado na Universidade de São Paulo ato contra a criminalização da política na USP. Além de protestar contra o crescente clima de perseguição e repressão, prestava solidariedade aos estudantes e funcionários sindicados ou processados pela reitoria.

Um dos oradores foi o professor Paulo Eduardo Arantes, da FFCLH. Na ocasião, ele  falou sobre o estado corrosão que grassa entre os professores. Lembrou também que a ex-reitora Suely Vilela disse a ele e a outros quatro professores que nenhum estudante seria processado por conta da ocupação da reitoria em 2007. Promessa que não foi cumprida nem pela Suely nem pelo atual reitor João Grandino Rodas.

A sua fala é atualíssima, merece ser lida/ouvida/vista novamente. Segue o vídeo. A diferença é que há um ano a situação era ruim, mas não tinha os contornos macabros de agora, com repressão deliberada.

Nós publicamos também a transcrição da fala do professor Paulo Arantes no blog em Defesa da Educação:

“Eu gostaria de fazer uma breve evocação e depois um breve comentário.

A evocação já foi feita pelo professor João Adolfo Hansen, que é a seguinte: na Ocupação da Reitoria de 2007 foi constituída uma comissão negociadora, que negociou com a reitora os termos da desocupação da reitoria, e uma das cláusulas é a de que não haveria nenhuma retaliação ou punição por motivos políticos. Os eventuais danos patrimoniais seriam objeto de uma investigação a parte, documentada, segundo os trâmites legais cabíveis. Isso foi totalmente ignorado. Um dos negociadores dessa cláusula, eu gostaria de evocar. Foi o professor István Jancsó, que faleceu recentemente, e que não pode ser esquecido, não apenas por esse episódio. O professor István Jancsó começou aqui na História. Grande e iminente historiador, especialista na história colonial brasileira, sobretudo nas grandes rebeliões baianas da época da independência, um estudioso da história do Brasil, é um exemplo de muitas coisas, não só do que é o ato docente, do que significa ser professor, mas ele é um exemplo de algo que nós estamos descuidando nesse momento.

Foram convidados vários professores [faz alusão ao ato e a baixa presença de professores], eu sei disso. Estou beirando os 70. Nós somos uma espécie de vitrine [faz referência aos integrantes da mesa], nós somos a cereja do bolo para estancar um pouco a sangria.

Mas é preciso aprofundar isso, este momento é um ato de solidariedade aos estudantes que estão sendo perseguidos, por inépcia jurídica inclusive, e aos funcionários. Mas é importante lembrar que a universidade também é composta de professores, e nós precisamos multiplicar os Istváns da vida. Se não fosse o István… o István  chegou a dar plantão, chegou a dormir na universidade. E ele tinha uma saúde frágil, por várias razões, inclusive porque havia sido torturado pela ditadura, ele é um veterano de 1964. De modo que essa memória que está encarnada pelos professores, não pode ser desativada.

Não quero fazer nenhuma alusão macabra, mas olhando para os meus colegas [dirigindo-se aos professores presentes à mesa], nós vamos morrer daqui a pouco e é necessário… e são sempre os mesmos, e cada vez que encontro os mesmos, alguns já estão grisalhos, outros nem estão mais aqui. De modo que é necessário providenciar uma mudança de quadros, e isso só é possível se nós tivermos uma estratégia de convencimento dos professores, inclusive lembrar a sua própria memória institucional, que estava presente no István Jancsó desde o inicio. E o István morreu há poucos meses. Fora uma ou outra homenagem pontual e escondida, sua morte passou em brancas nuvens. Porque essas coisas acontecem, como o falecimento [do István], e passam em brancas nuvens… essas pequenas barbaridades que nós estamos testemunhando agora podem se avolumar na mais completa indiferença e impunidade, porque os colegas dele, assim como foram indiferentes à passagem dele pela Universidade de São Paulo, são indiferentes ou pouco estão ligando ao que reitor atual está fazendo… uma truculência  a mais… estão todos anestesiados.

Era isso que eu queria dizer. É apenas um recado. Lembrem-se de personagens desse porte.

Nós estamos afundando não é pela repressão, nós estamos afundando internamente, é uma implosão, e essa implosão começou há uns 20 e poucos anos atrás pelo corpo docente, depois chegou aos estudantes e funcionários”.

Publicado originalmente em  – VI O MUNDO em 10 de novembro de 2011 às 12:31

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