Carta aberta aos alunos da FFLCH – João Vergílio Gallerani Cuter

Posted on 25/11/2011 por

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Mais uma vez, como acontece quase todos os anos, minha aula foi interrompida na última segunda-feira (dia 21) por um grupo de estudantes que buscavam obter na marra uma unanimidade que não conseguiram alcançar por meio da argumentação e do convencimento. Nós todos, professores, funcionários e alunos desta Universidade, precisamos repensar o significado de episódios como esse. Estamos a um passo de presenciar cenas de pugilato entre alunos — há poucos dias, quase tivemos um desfecho desse tipo no prédio da Letras. Talvez seja hora de fazermos uma pausa e, sem abrir mão de nossas convicções pessoais, tentarmos chegar a um acordo a respeito de regras básicas que garantam uma convivência civilizada dentro da FFLCH.

A invasão de uma sala de aula (da mesma forma que um cadeiraço, um apitaço, e coisas do gênero) sempre envolve algum grau de violência. Não se trata, é claro, de violência desregrada ou desmedida. O que se nota nessas manifestações é uma observância estrita de certas regras e uma mensuração cuidadosa do grau de ruptura admissível em cada situação. Faz-se uma espécie de “cálculo”. Trata-se, em cada caso, de determinar o menor grau de violência física capaz de gerar um certo resultado. É essa a natureza do piquete, do cadeiraço, do apitaço, da invasão de sala.

É um cálculo de difícil visualização. Conforme o lugar de que o enxergamos, ele assume um aspecto diferente. Do ponto de vista de quem calcula, parece mais uma recusa da violência física do que um convite a ela. Afinal de contas, a preocupação maior do calculista é justamente chegar a um certo mínimo indispensável de meios físicos para a consecução de um certo fim. Trata-se, digamos assim, de guardar a maior distância possível de uma troca de socos. No entanto, se mudarmos nosso posto de observação e olharmos para esse cálculo no contexto do conflito em que ele se insere, a coisa muda de figura. Quando uma pessoa acredita ser razoável fazer essa contabilidade da violência, ela implicitamente autoriza seus oponentes a empregarem a mesma lógica. Os alunos que estão sendo vítimas do piquete podem ser levados a raciocinar da seguinte forma: “Os argumentos se esgotaram. É hora de utilizarmos outros meios. Uma troca de socos seria um incidente lamentável, a ser evitado a todo custo. Qual será, então, a dose mínima de violência física necessária para nos contrapormos a essas pessoas que invadiram as classes e interromperam as aulas? Tentemos expulsá-los no grito. Se isso não surtir efeito, refaremos nossos cálculos.”

As coisas se complicam ainda mais porque, vista do lado dos manifestantes, a mera permanência em classe de quem não aderiu à greve pode ser vista como uma violência — e violência física! — contra a decisão tomada pela maioria dos estudantes que votaram numa assembléia. O raciocínio é simples. “Se agem fisicamente ocupando classes que deveriam estar vazias, agiremos também fisicamente, interrompendo as aulas. Eles começaram o cálculo de violências possíveis. Nós só reagimos, efetuando a segunda operação desse cálculo.” Creio que existe aqui um equívoco a respeito do tipo de obrigação gerada por decisões de uma assembléia e também a respeito da legitimidade da violência praticada em nome dessas decisões. Mas existe também uma outra questão, talvez mais premente, na medida em que nos permite compreender as atitudes antagônicas dentro da comunidade acadêmica frente a certas modalidades de decisão coletiva.

Para boa parte dos estudantes, funcionários e professores, assembléias deixaram de ser mecanismos legítimos para a tomada coletiva de decisões. Muitos de nós convenceram-se de que as assembléias se transformaram, nos melhores casos, em mecanismos de manipulação ideológica, cuja única função é garantir a “hegemonia dos mobilizados”. Um professor ou aluno que entra em sala de aula contrariando decisões de uma assembléia não se sente de modo algum traindo a “vontade coletiva”, a “confiança dos colegas”, ou o que quer que seja. Sente que está simplesmente exercendo seu direito de ir e vir, pois não atribui nenhum valor às decisões tomadas pelos colegas. Essas pessoas não frequentam assembléias, não querem frequentá-las, e não acreditam que, deixando de frequentá-las, estejam dando a quem quer que seja o direito de decidir qualquer coisa em seu nome. Esse é o ponto. Não é este o espaço adequado para avaliar em profundidade essa crise de legitimidade das assembléias, mas é preciso reconhecer que ela existe, e é um dos inúmeros assuntos que precisam ser discutidos dentro da universidade. Há respostas que precisam deixar de ser dadas, e perguntas que precisam começar a ser feitas. Façamos pelo menos algumas. Uma assembléia virtual, conduzida na Internet ao longo de quatro ou cinco dias, seguida de uma votação eletrônica no final da semana não seria uma opção muito mais interessante do que assembléias presenciais de duas, três horas, a que poucos alunos e professores podem ou querem comparecer? A palavra escrita, no contexto de uma discussão coletiva, não teria um peso muito maior? Não haveria um ganho se retirássemos dos mecanismos coletivos de decisão o elemento intimidatório das vaias e dos aplausos? Não seria ótimo que pessoas mais tímidas, mas bem articuladas, pudessem dar contribuições relevantes ao debate? Não seria muito mais difícil que eventos desse tipo fossem manipulados por pequenos grupos políticos graças a um arsenal de espertezas muito bem conhecido por todos nós? (Não nos esqueçamos de que esta última invasão da Reitoria foi, sim, decidida pelo voto da maioria dos presentes numa assembléia. Eu lhes pergunto: numa assembléia virtual, uma decisão como aquela teria sido tomada? E, caso fosse tomada, mas com ampla participação dos alunos, ela não teria uma outra força? Não teria um outro sentido?).

Unida à crise de legitimidade das assembléias, a utilização de piquetes tem um efeito particularmente pernicioso. Eles se transformam pura e simplesmente numa agressão de um grupo contra outro, que não vê no primeiro nenhuma legitimidade para tomar uma atitude tão extrema. A situação fica reduzida a uma briga (a expressão é esta!) entre a “turma das assembléias” e a “turma que deseja assistir às aulas”. Até aqui, não houve reações violentas, mas elas estão a um passo de acontecer, pois a parte ofendida começa a sentir-se no direito de reagir como puder. É esse o desfecho a que queremos assistir?

É necessário que os defensores dos piquetes em sala de aula comecem a se pôr no lugar de quem está lá dentro. Imaginem-se do outro lado. Imaginem, por exemplo, que um grupo de alunos que não reconhecesse legitimidade nas assembléias resolvesse acabar com uma delas utilizando “a menor intensidade possível de violência física” — por exemplo, fazendo um apitaço que inviabilizasse a reunião. Quando uma pessoa fosse falar, seria interrompida por um coro de apitos e buzinas. A pessoa tentaria falar novamente, e o apitaço seria retomado. Os alunos presentes à assembléia reclamariam, xingariam, e os manifestantes voltariam a fazer silêncio, até que alguém tentasse retomar a palavra. Após quinze, vinte minutos sendo submetidos a essa violência mínima, como vocês, que defendem os piquetes em sala de aula, reagiriam? Como vocês se sentiriam? Acima de tudo — é nesta direção que devemos caminhar? É esse o horizonte que queremos abrir?

A discussão está tão envenenada, que me sinto obrigado neste ponto a transformar uma obviedade em ressalva. Nem me passa pela cabeça propor que se apliquem às assembléias os métodos violentos próprios dos piquetes. Isso seria a consumação da barbárie. Estou propondo exatamente o contrário disso. É preciso restituir à palavra o peso e a importância que ela deve ter, e não avançar no sentido de substituí-la por apitos e buzinas. É preciso, enfim, que todos nós façamos uma reflexão a respeito dos limites e das modalidades da ação política dentro do campus. O objetivo não é de maneira alguma bloquear o debate dentro da universidade, mas ampliá-lo, e dar a ele um novo sentido e uma nova força. A solução não está na década de 60, com seus livros sagrados e suas mitologias. O que foi grandioso naquela geração foi exatamente o fato de que eles tiveram a audácia de inventar seu próprio tempo. Por que não ousar um passo do mesmo tamanho? Por que se contentar com o triste papel reservado aos epígonos? Os problemas estão todos aí, intocados. O Brasil, apesar dos inegáveis avanços, continua sendo um país no qual a igualdade de oportunidades inexiste. No mundo todo, a democracia ameaça muitas vezes transformar-se numa cerimônia vazia, na qual o voto depositado na urna não tem nenhum sentido para além da escolha de Fulano, ao invés de Beltrano. No âmbito da universidade, precisamos sem dúvida discutir os problemas (e os limites) da representação e da legitimidade. Os problemas estão aí, por toda a parte, na universidade e fora dela. Eu só me pergunto se é necessário paralisar aulas para discuti-los (numa macaqueação um pouco ridícula das greves de trabalhadores) e, acima de tudo, se é legítimo utilizar a violência dos piquetes para garantir paralisações decididas em assembléias nas quais metade da comunidade acadêmica não enxerga nenhuma legitimidade. A idéia não é recuar para o conformismo, mas avançar para novas formas de legitimação, aceitando todos os riscos dessa caminhada. A idéia não é, enfim, esvaziar o debate na universidade, mas torná-lo mais amplo, mais profundo e mais legítimo.

Publicado originalmente no Blog do João Vergílio, em 25 de novembro de 2011 

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