MANIFESTO PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA USP

Posted on 01/03/2012 por

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      Nós, perseguidos pelo regime militar, parentes dos companheiros
      assassinados durante esses anos sombrios e defensores dos princípios
      por eles almejados assinamos este manifesto como forma de recusa ao
      monumento que está sendo construído em homenagem às chamadas “vítimas
      de 64″ na Praça do Relógio, Cidade Universitária, São Paulo.
      Um monumento na USP já deveria há muito estar erguido. É justo,
      necessário, e precisa ser feito. Porém, não aceitamos receber essa
      homenagem de uma reitoria que reatualiza o caráter autoritário e
      antidemocrático das estruturas de poder da USP, reiterando
      dispositivos e práticas forjadas durante a ditadura militar, tais como
      perseguições políticas, intimidações pessoais e recurso ao aparato
      militar como mediador de conflitos sociais. Ao fazer isso, essa
      reitoria despreza a memória dos que foram perseguidos e punidos pelo
      Estado brasileiro e pela Universidade de São Paulo por defenderem a
      democratização radical de ambos.
      Esse desprezo pela memória dos que sofreram por defender a democracia,
      dentro e fora da Universidade, se manifesta claramente na placa que
      inaugurava a construção de tal monumento. A expressão “Vítimas da
      Revolução de 1964″ contém duas graves deturpações: nomeia de “vitimas”
      os que não recearam enfrentar a violência armada, e, mais problemático
      ainda, de “revolução de 1964” o golpe militar ilegal e ilegítimo.
      Essa deturpação da linguagem não é, portanto, fortuita. Resulta da
      ideologia autoritária predominante na alta cúpula da USP.
      Durante a ditadura, essa ideologia autoritária levou a direção central
      da USP a perseguir, espionar, afastar e delatar muitos dos que então
      resistiam à barbárie disseminada na Universidade e na sociedade
      brasileira como um todo. Ainda macula a imagem desta Universidade a
      dura lembrança (i) dos inquéritos policiais-militares, instaurados com
      apoio ou conivência da reitoria; (ii) das comissões secretas de
      vigilância e perseguição; (iii) das delações oficiais de alunos,
      funcionários e professores para as forças de repressão federais e
      estaduais; (iv) da mobilização do aparato militar na invasão do CRUSP
      e da Faculdade de Filosofia em 1968; (v) da colaboração quase
      institucional da USP, na figura do seu então reitor, Luis Antonio Gama
      e Silva, na redação do Ato Institucional Número 5 –  AI5; (vi) e da
      aprovação, por Decreto, do regimento disciplinar de 1972, que veda a
      docentes e discentes qualquer forma de participação política e confere
      à reitoria poder para perseguir os que o fazem.
      Atualmente, essa mesma prática autoritária se manifesta não apenas na
      inadmissível preservação e utilização do regimento disciplinar de 1972
      para apoiar perseguições políticas no interior da Universidade, mas
      também (i) na reiterada recusa da administração central da USP em
      reformar o seu estatuto antidemocrático, mais afeito ao arcabouço
      jurídico da ditadura militar do que à Constituição Federal de 1988;
      (ii) na forma pouco democrática das eleições dos dirigentes da USP,
      que assume sua forma mais absurda no processo de escolha do reitor por
      meio de um colégio eleitoral que representa menos de 1% da comunidade
      universitária; (iii) na ingerência do governo do Estado na eleição do
      reitor desta Universidade; (iv) e, mais grave ainda, na recorrente
      mobilização da força policial-militar para a resolução de conflitos
      políticos no interior desta universidade, tal como ocorreu,
      recentemente, na desocupação da reitoria da USP.
      Nesse sentido, em memória dos que combateram as práticas da barbárie
      autoritária e suas manifestações, defendemos que a melhor forma de
      homenagear os muitos uspianos e demais brasileiros que tombaram nesta
      luta não é um monumento; mas, sim, a adoção dos princípios
      verdadeiramente democráticos em nossa Universidade, o que demanda o
      fim do convênio com a Polícia Militar, bem como o fim das perseguições
      políticas pela reitoria e pelo Governo de São Paulo a 98 estudantes e
      5 dirigentes sindicais, através de processos administrativos e penais,
      e a imediata instauração de uma estatuinte livre, democrática e
      soberana, eleita e constituída exclusivamente para este fim.
      Assinatura de familiares de mortos e desaparecidos, de ex-presos e
      perseguidos pela ditadura. Uspianos e não uspianos.
      Assinatura de professores da USP e de outras universidades brasileiras
      Adriano Diogo* (Geólogo, Dep. Estadual; ex-preso político)
      Ana Barone **
      André Tsutomu Ota * (Professor Dr. da UEL; ex-aluno da USP e ex-preso político)
      Anivaldo Padilha ***
      Antonio Roberto Espinosa * (Jornalista; ex-preso político)
      Artur Scavone** (Estudante; presidente do CEFISMA em 1970 e ex-preso político)
      Aton Fon Filho *** (Advogado; ex-preso político)
      Benjamin Abdala Junior **  (Prof. Titular da USP; ex-preso político)
      Bento Prado Jr. (Família assina em memória)
      Caio Prado Jr. (Família assina em memória)
      Carlos Alberto Lobão Cunha*
      Carlos Eugênio Paz***
      Carlos Neder* (Médico, Vereador; ex-preso político)
      Carmem Silvia Vidigal**
      Celso Lungaretti * (Jornalista formado pela ECA, blogueiro, ativista de direitos humanos; ex-preso político e militante da VPR)
      Chico de Oliveira** (Prof. Emérito da USP; ex-preso político)
      Darci Miyaki *** (Advogada e ex-presa política)
      Décio Teixeira Noronha ***
      Dilmar Miranda *** (Professor de Filosofia da UFC; ex-preso político)
      Divo Guisoni *** (Filósofo; perseguido pela ditadura e condenado à revelia)
      Edson Teles * (Sobrinho de André Grabois, desaparecido durante a Guerrilha do Araguaia. Professor de Filosofia da Unifesp e ex-aluno da USP; ex-preso político)
      Emília Viotti da Costa**  (Prof. Aposentada da USP; afastada da Universidade pelo AI-5)
      Emir Sader* (Prof. aposentado da USP, Prof. de Sociologia da UFRJ; perseguido pela ditadura)
      Enzo Luis Nico Jr. * (Perseguido pela ditadura e exilado)
      Flávio Wolf de Aguiar * (Professor aposentado de Literatura Brasileira da USP; ex-preso político)
      Fernando Ponte de Souza*
      Francisco Bernardo de Arantes Karam ***
      Francisco Paulo Greter * (Filósofo e vice-presidente da APROFFESP; perseguido pelo regime militar)
      Helenira Resende de Souza Nazareth* (Assina Helenalda Resende de Souza Nazareth; ex-aluna da USP do Curso de Matemática, FFCL/USP, professora universitária aposentada; irmã de Helenira Resende de Souza Nazareth: desaparecida no Araguaia, em 1972; foi aluna do curso de Letras da FFCL da USP e membro da diretoria da UNE, eleita após o Congresso de IBIUNA)
      Heleny T. F. Guariba *(Família assina em memória) (Desaparecida desde 1971 após ser presa pelos orgãos de repressão da ditadura. Foi professora da EAD/USP, diretora teatral e militante da VPR)
      Helena Greco *** (Assinam Heloísa Greco e Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania)
      Kuba Goldberg * (Família assina em memória) (Professor do ITA, ex-uspiano, ex-preso político)
      Ivan Seixas *** (Núcleo de Preservação da Memória Política; Ex-preso político) Jonas Tadeu Silva Malaco**
      John Kennedy Ferreira***
      José Augusto Azeredo *** (Consultor Sindical; ex-preso político)
      José Damião de Lima Trindade* (Procurador do Estado de SP; ex-preso político) Lúcia Rodrigues*
      Laura Christina Mello de Aquino *
      Laurita Ricardo de Salles * (Prof. Dra. da UFRN; ex-estudante da USP e ex-presa política)
      João Fortunato Vidigal e Thereza Vidigal *** (Assina: Leonardo Alvares Vidigal, Professor Dr. da UFMG, ex-aluno da ECA-USP, filho de João Fortunato Vidigal, ativista estudantil, preso político, perseguido e falecido durante a ditadura militar, vítima de ferimentos causados por tortura, eThereza Vidigal, ex-presa política, perseguida durante a ditadura)
      Leonel Itaussu Almeida Mello** (Prof. Titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo; ex-preso político)
      Luís Carlos Prestes (Família assina em memória)
      Luiz Costa Lima *** (Prof. de Teoria Literária da PUC/RJ; ex-preso político)
      Luiz Dagobert de Aguirra Roncari** (Prof. de Literatura Brasileira da USP; ex-preso político)
      Luiz Eduardo Merlino *** (Assina Tatiana Merlino, jornalista, editora adjunta Caros Amigos e sobrinha de Luiz Eduardo Merlino, jornalista morto pela ditadura)
      Luiz Siveira Menna Barreto **
      Maria Amélia Azevedo * (Professora aposentada da USP/IP; perseguida política) Maria Dolores Pereira Bahia ***
      Mário Maestri***
      Marly de Almeida Vianna ***
      Marylizi Thuler de Oliveira *
      Maura Gerbi Veiga* (Professora e perseguida pela ditadura)
      Nelson Soares Wisnik *(Ex-cruspiano, ex-preso político, ex-professor do IF-USP, familiar de ativista morto pela ditadura)
      Olga Bohomoletz Henriques *** (Família assina em memória) (Médica; perseguida pela diatadura, aposentada por decreto e exilada política)
      Osmar Gomes da Silva * (Dentista; ex-aluno de Odontologia da USP e ex-preso político)
      Osvaldo Coggiola (Prof. Titular da USP; argentino de nascimento, foi perseguido e preso durante à ditadura Argentina)
      Reinaldo A. Carcanholo *** (Professor Dr. da UFES; ex-exilado político)
      Rubens Pereira dos Santos * (Professor da Unesp; ex-uspiano e ex-preso político)
      Rui Falcão * (Advogado, Dep. Estadual; ex-preso político)
      Sebastião Baeta Henriques *** (Família assina em memória) (Médico; Perseguido pela diatadura, aposentado por decreto e exilado político)
      Selma Bandeira Mendes Dantas Vale *** (Assina Luiz Dantas Vale, professor da UFAL, familiar de Selma Bandeira Mendes Dantas Vale, professora da Universidade Federal de Alagoas, deputada estadual, perseguida política ? ficou clandestina por mais de 5 anos, quando foi presa. Uma das primeiras pessoas a ser beneficiada pela Lei da Anistia)
      Takao Amano* (Advogado; ex-preso político e exilado)
      Wolfgang Leo Maar * (Professor Titular da UFSCar; ex-aluno da USP e ex-preso político)
      Zenaide Machado de Oliveira *** (Cientista Social; ex-militante da VPR, anistiada política)
      Zillah Branco*
      Zuzu Angel e Stuart Angel Jones *** (Assinam Hildegard Angel Bogossian e Ana Cristina Angel Dronne: filhas de Zuzu Angel e irmãs de Stuart Angel Jones, assassinados pela ditadura militar. Assinam também em nome do Instituto Zuzu Angel)
      (*) Ex-uspiano
      (**) Em atividade na USP
      (***) Não uspiano
      Muitos dos signatários acima além de presos e/ou exilados, tiveram
      seus direitos políticos cassados, foram torturados, aposentados
          compulsoriamente.
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Posted in: Eventos, Manifesto, Texto